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6 de novembro de 2009

VeRtIgEmFeItAtEmPo

Monte a monte o voo da andorinha rasgou-lhe o coração. Era Outono mas estava tanto calor que o ar fresco parecia cortar. Como um punhal. Seguiu o seu caminho endiabrada e serena, na inquietação do olhar vagabundo e da pele feita seda. O seu corpo era um manto ou um jardim. Deixou-se levar sem receio. Sabia que a chegada não seria uma nova partida. Monte a monte, na solidão dos silêncios. Nas memórias perdidas das rugas. Nos passos firmes da autenticidade. Cada casa um lar de amor e crianças. Cada janela uma saudade. Cada canto uma tela aberta aos céus. Divinos leitos de perfume e reflexos onde todos eram poetas. Ou amantes. Que o desejo das andorinhas é sempre este voo que se (re)faz como quem respira. É sempre a aterragem de quem chega a um lugar desconhecido que afinal é o seu. Monte a monte. No ritual da vertigem feita tempo...

1 de novembro de 2009

ApErGuNtA

"Como se guarda um beijo para sempre?", perguntou a Bela Amante ao Sábio.
"Oh... se eu soubesse...", respondeu ele, que nunca tivera tempo para amar.
"Como se guarda um beijo para sempre?", perguntou a Bela Amante ao Coveiro.
"Oh... se eu soubesse... A vida fez-me esquecer tudo. Só lido com a morte...", respondeu ele, que deixou de saber o que era o tempo.
"Como se guarda um beijo para sempre?", perguntou a Bela Amante ao Músico.
"Canto, porque o amor apetece...", respondeu ele, cantando, a tempo, no meio do seu rendilhar de notas de amor que pintavam a sua solidão.
"Como se guarda um beijo para sempre?", perguntou a Bela Amante ao Menino.
"Guardando!", respondeu ele, já que tinha tempo para tudo e tudo era simples e possível.
"Como se guarda um beijo para sempre?", perguntou a Bela Amante à Mãe.
"No colo.", respondeu ela, cheia de tempo e abraços.
"Como se guarda um beijo para sempre?", perguntou a Bela Amante ao Poeta.
"No silêncio de ti. Dentro de ti. Nos gritos de ti. Fora de ti.", respondeu ele, tão cansado que se sentia do tempo.
"Como se guarda um beijo para sempre?", perguntou a Bela Amante ao Vento.
"Na minha pele.", respondeu ele, acariciando de novo a sua saudade.
E foi aí que ela percebeu outra vez a sua história... e do tempo se ressuscitou num sorriso eterno.
O Sábio,
O Coveiro,
O Músico,
O Menino
e
a Mãe fizeram-se à estrada.
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E o Poeta?
"Quem?"
"O Poeta!"
"Não conheço..."
"Não conheces?!! Acabaste de lhe perguntar como se guarda um beijo para sempre!"
"Eu?!!!! Que disparate de pergunta..."

18 de janeiro de 2009

nAvErTiGeMdAfALéSiA


Na vertigem da falésia explode o meu coração carrega o peso e o fogo da sua história no encalce de uma canção na vertigem da falésia labiritno secreto dos amantes o meu peito encontra a liberdade nas estradas de todos os viajantes na vertigem da falésia podem os minutos ler para além dos abraços podem as palavras entoar as memórias sonhos da multidão na vertigem da falésia onde explode o meu coração... Na vertigem da falésia onde o Sol anuncia que os silêncios respiram ternura no passo seguro no pulso forte na manta da candura na vertigem da falésia onde o olhar penetra e reflecte flores no horizonte espelho do mundo feito de saudades piratas e amores na vertigem da falésia feita de carne e loucura morro-me para me parir de novo nos areais do tempo do mar e da rocha na vertigem da falésia os silêncios respiram ternura...

6 de setembro de 2008

aMoReMoRtE

ELE:

Foi no silêncio do meu choro que te reencontrei. Senti de novo o sabor do teu toque e de repente toda a minha memória estava ali, colada a nós. E as lágrimas fizeram-se ao mar numa secreta aguarela que pintou os meus olhos eternamente. Desejei o passado. Ontem. Aquele dia em que diante das ondas eu conseguia saltar. Perto de mais de ti o meu sorriso é um grito. E eu morro mais uma vez.

ELA:

Não voltes de tão longe. Os regressos sabem a um mel demasiadamente corrosivo e a minha pele enrugou-se de ti. Fica no teu lugar. Longe. Ali, juntinho a todas as palavras que se fazem verso na distância. Coloridas desta dor de te amar. Carregadas desta suada espera da morte.

20 de março de 2008

eNcRuZiLhAdA

Céu. Perto de mais das arribas à boca das ondas. Criação das memórias em volta das obsessivas vertigens dos passados em perseguição do futuro. Por onde se esboçam os sorrisos e as lágrimas de correntes em margens junto, formando os rios da nossa alma. Chove. Cada gota recebe-me os sonhos e transporta-me para junto de todas as viagens. Raposódias de silêncios que nos ecoam as mãos em pontas de dedos que se procuram. Chão. Fermento por onde os passos se transformam na fome mais antiga de todas. A das veias. Que nos transportam sempre.

19 de março de 2008

s0rRi0-tE

Se encontrar no caminho os restos da nossa festa, nada será em vão. Pego no estandarte e revelo-me novamente a dança. Carrego as farturas e sorrio aos foguetes. Compro um manjerico para te oferecer. E uma rifa. Desejando que a festa nunca acabe e que possa ecoar forte a tua gargalhada...

21 de fevereiro de 2008

nUnCaMaIsFuIaCaSaDaSpEsSoAs

Lembro-me que mudei de casa. Que arrumei os papéis e as memórias. Precisava arrumar algumas coisas. Então pedi a onze pessoas que escrevessem cada uma doze palavras sobre mim. Eu também o fiz. Reuni, então, cento e quarenta e quatro possibilidades, algumas das quais repetidas. Não me lembro porquê, mas desse conjunto escolhi 12. Estas que se seguem. E assim, para cada uma delas escrevi um poema para dizer (era a primeira vez que escrevia para EU dizer...) e associei uma das canções das minhas arrumações. Nasceu então um recital a que chamei 12 PALAVRAS QUE SE DIZEM E QUE SE CANTAM. Faltava o espaço para estas palavras. Um auditório? Um teatro? Não... Resolvi montar toda esta estrutura para se fazer na casa de quem quisesse. E assim as minhas palavras correram famílias e amigos, reunidos numa sala preparada com carinho por cada anfitrião, numa tertúlia que acabou sempre em lágrimas de emoção (tal como, depois nalguns espaços públicos também). Decorria o ano de 1994.
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1. Canto 2. Fragilidade 3. Procura 4. Amizade 5. Conflito 6. Criança 7. Pai 8. Revolução 9. Paixão 10. Querer 11. Medo 12. Saudade
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A propósito do Abraço e desafio da Luísa (pin gente).

8 de fevereiro de 2008

pRoCuRa

Cabe-me o enredo no peito. Talvez passado em Paris. Aquela caminhada junto ao rio, junto ao cheiro da História. Perto de mais do meu passado. Abraçado eternamente ao meu futuro. O quarto, pequeno e discreto, tudo encobria. Cada luz da cidade luz. Cada respirar profundo dos amantes. Ele sentou-se junto à janela contemplando o cimo das casas. Como num filme. Ela ficou-se encostada ao fogão, para se aquecer naquela manhã fria. Por momentos o tempo não foi o mesmo e os seus olhares não se cruzaram. Teve de ser assim. Nem para a despedida eminente. Ele sabia que mal saísse por aquela porta todos os caminhos se fechariam para sempre. Ela nem queria pensar nisso. Abandonou-se ao calor do lume aceso à espera de nada. Como eles. Que não esperavam nada. Mesmo em Paris. Onde tudo se espera. Onde cada espera é demasiado bela. Eu quero ir a
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.P.
.a.
.r.
.i.
.s.
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Procurar-me.

20 de janeiro de 2008

tAnGo

Atiro o casaco ao chão. Com força. E delicadeza também. Mas atiro-o! Depois deixo-o pousado a olhar para mim. Quem sabe a perguntar porque o atirei ao chão. Não me importo. Quero lá saber MESMO. Os casacos não pensam... Que mal me poderia acontecer? Nunca mais ser vestido por mim? Recusar-se aquecer-me? Demitir-se da sua função de adorno (Como me fica bem este casaco!)? O facto é que o atirei ao chão e não me arrependo. Até fica bem. Ali, junto ao mármore claro... Digam lá: não fica? Pois claro que fica. Assim. Atirado. Pousado seria melhor? Talvez. Não me apetece pensar nisso. Foi lindo o gesto em forma de tango ao sol ardente da tarde de tirar o casaco e prostrá-lo assim no frio mármore. E os meus cabelos agora mais longos também desejaram tangar. E a minha língua girar em beijos vadios. Os meus olhos em vertigens arrepiantes. As minhas mãos em acordes desconcertantes. A minha voz em gritos de merlo. O meu corpo angustiadamente contorcido na sedução do bailar do gesto. O simples gesto de atirar o casaco ao chão. Para de novo o amar.

14 de janeiro de 2008

CaLo

Vou correr. Sim. Saltar e correr. Gritar. Anunciar-me numa nova rouquidão. Um eterno cansaço. Vou correr. Sim. Sobrevoar-me sem me ver. Sem nunca mais me ver. Sem ver nada nem ninguém. Correr. Sempre em frente. Em direcção ao vazio. Deixar as nuvens entrar-me no rosto. Mergulhar-me as lágrimas e inundar todas as palavras. Mais as que nos unem e as que nos afastam e as que nos abismam e as que nos intrigam e as que nos magoam e as que nos limpam e as que nos percorrem e... Vou correr. Corresponder-me num outro precipício. Em vertigem. Talvez sem palavras. Talvez sem mim. Até a saudade me trazer de volta e outra vez morrer de amor.

9 de dezembro de 2007

qUaLaCoRdAd0r?

Cada lágrima minha ecoa demasiadamente forte dentro de mim para conseguir ser corrente.
Cada silêncio levanta as palavras gastas de tamanha inquietação.

Volto de novo um dia talvez quem sabe outra vez a ser isso mesmo... Presente.

Carrego-me as memórias das ondas que devoram todos os momentos do meu coração.

Sufoca-me o peito. Abafa-me a história. Perturbante maré nos meus olhos perdida.

Calo-me. Sim. Calarei todos os pedaços das trocas. Dos aromas em ebulição.

Na estação da viagem. Por entre o escuro da noite e a certeza da partida. Só de ida?

Em todo o peso de uma existência fortemente entregue ao destino e à solidão.

Cada lágrima. As minhas. Sem reflexo. Sem brilho. Limpas. Plenas de mim.

Na mistura indissolúvel que nos interroga os caminhos quando se vê o fim.

Perto demais da morte. Longe demais da entrada. Onde tudo se atropela assim.

Será jardim?

3 de dezembro de 2007

c0l0(-mE)

É nas folhas caídas que a Primavera anuncia a sua nova viagem. "Deixo-te as cores do Outono...", terá dito ao partir. Fiquei a olhar. O vento seguro e transparente remassava os dias no embalo das noites silenciosas e solitárias. Os olhares desconfiados do regresso passavam sem deixar rasto. Cada palavra tremia-me na ponta dos dedos e no eco da minha memória. As folhas caídas mortas na sua vida eterna de ir e vir, de colorir a estação, de saber que há sempre histórias em cada permanência... Perdi-me de tanto ficar. Perto. No colo forte dos anos que passam e repassam e passam e repassam e passam e passam e repassam e passam e repassam e passam... ...

18 de abril de 2007

s0MbRaS


DDee qquuee ssoommbbrraass ssããoo ppiinnttaaddaass aass mmiinnhhaass ppééttaallaass?? QQuuee ppoonntteess,, ttoorrnnaaddaass ffiinnaallmmeennttee ssóólliiddaass,, mmee ccoobbrreemm?? PPeeddaaççooss ddee mmiimm,, ppoorr aaíí.. TTaallvveezz ppoorr ddeennttrroo,, ttaallvveezz vveerrddaaddee...... TTrriillhhooss ddee uumm ccaammiinnhhaannttee ssoollttoo nnaa ssuuaa pprróópprriiaa prisão......

8 de dezembro de 2006

O filho do senhor Rafael

O senhor Rafael era rico e disso não fazia segredo. O filho do senhor Rafael menos ainda, se pensarmos que tinha 7 anos e andava na escola – quer dizer, no colégio –, como quase todos os meninos da sua idade.
– Quase todos?!! – Perguntou-me um dia.
– Sim. Quase todos. Há muitos meninos da tua idade que não vão para a escola. – Respondi-lhe.
– Porque não querem? – Continuou a mostrar-se interessado.
– Não. Porque não podem. – Disse-lhe, sem no entanto transmitir uma carga demasiadamente pesada à minha opinião.
– Não podem porquê? – Insurgiu-se ele.
– Olha, por várias razões: porque não há escolas perto das suas casas, porque precisam de trabalhar, porque não têm dinheiro… – Ia-lhe dizendo, calmamente, assim em tom de avô paternal.
– Não têm dinheiro?!!! – Espantou-se o filho do senhor Rafael.
– Sim. – Respondi-lhe, seco. Como se ele tivesse culpa de ser filho do senhor Rafael!
– E eu posso comprar uma escola e dar a esses meninos? – Sugeriu, inocente.
– Poder, podes. Só que não é assim tão fácil. – Fui-lhe dizendo, atrapalhado. – Para uma escola funcionar é preciso muito mais do que dinheiro.
– E isso que é preciso para uma escola funcionar como é que se arranja? – O seu entusiasmo era visível.
– Com dinheiro… – O meu embaraço era mais que evidente.
– Então… – Sorriu, como se tivesse descoberto a solução do mundo.
– Por exemplo… – Comecei, decidido. – Na Ásia, na América do Sul ou em África há muitos meninos que não conseguem nem sequer comer ou vestir e muito menos ir à escola.
– África? – Intrigou-se.
– Sim. África. Por exemplo. – Confirmei.
– É grande África? – Curiosidade…
– É enorme! E lindo. Do outro mundo… Quer dizer… do nosso mundo, mas tão maravilhoso que até custa a acreditar que também se encontre lá tamanha pobreza e decadência! – Letal.
– Posso comprar… – Laboratorial.
– Não. Não podes. Nem tu nem ninguém. – Decidido. – África é um Continente, cheio de países e os países não se compram.
– O meu pai acha que não. – Adulto. – Ele diz que o mundo é de meia dúzia de pessoas.
– Pois… Mas isso é outra conversa.
E aqui acaba o meu diálogo com o filho do senhor Rafael. Quer dizer… não acaba. Eu é que decidi acabar. Realmente! Onde chega a infância… Por um lado admite que tudo é pertença dos poderosos; por outro, ao mesmo tempo, acha-se capaz de ser também poderoso, ao pensar que o seu dinheiro pode comprar isto e aquilo… Estou fascinado.
Fascinado com esta linguagem da fantasia que nos vai permitindo escrever sobre tudo e mais alguma coisa e ir expondo as nossas inquietações através de personagens criados propositadamente. Fascinado com a nossa capacidade de sermos ridículos quando não assumimos as palavras para dizer o que pensamos. Sim, as palavras. As palavras certas e certeiras. E sabem porquê? Porque seria fácil e quem sabe popular elaborar um escrito politica e eticamente fervoroso contra o domínio dos poderosos e da finança; um texto forte e directo. Sem poesia e até com vocabulário mais agressivo.
– Porque não podemos comprar as palavras? – Interrogou-me de novo o filho do senhor Rafael.
– As palavras não se vendem. Todos as podemos usar. – Respondi. – Temos é de ter cuidado com a forma e o lugar onde as usamos.
– Porquê? – Cirúrgico.
– Ora… porque as palavras que dizemos ou escrevemos normalmente não são ouvidas ou lidas da forma como queremos. – Catedrático.
– Não?! E se comprarmos também quem as ouve ou as lê? – Insistente!
– Deves pensar que tudo se compra, ó rapazinho! – Farto.
– O meu pai acha que sim. – De novo.
Andamos às voltas nos mesmos problemas e não chegamos a lado nenhum. Corremos o risco até de baralhar alguns mais lúcidos e arrumadinhos na vida e nos princípios. “Poderemos comprar um fim?”, ter-me-ia perguntado o filho do senhor Rafael. Mas sabem porque não pergunta?
Porque o filho do senhor Rafael não existe. Porque cada um de nós é filho do senhor Rafael.

29 de novembro de 2006

a filha cegA

Era uma vez um rei que tinha uma filha cega. O rei gostava muito da filha e mostrava-lhe o mundo pelas mãos, pelos sons, pelos cheiros. E mostrava-lhe tudo – pinhas, brinquedos, instrumentos...

Mostrava-lhe tantas coisas que um dia, quando já tinha idade para casar (como todas as princesas dos contos), ela disse-lhe:

- Meu pai. Já podes morrer descansado porque já conheço o mundo e estou pronta para casar.
- Mas minha filha... Ainda não tens o teu príncipe.
- Pois não, pai... Estive ocupada a conhecer o mundo.

Nesse momento o rei morreu e a princesa pôde finalmente procurar alguma coisa.

oTeMp0

O tempo que passa Leva uma flor ao vento Que se faz poesia e raça Fonte, porta e lamento Curva-se o peregrino Sem ter medo da desgra...