6 de dezembro de 2006

SeR

Viagem de volta e ida
-----Entre o dia, a noite e o desespero
----------Vamos correndo, amando em cada despedida,
---------------Vamos perdendo e ganhando a cada amor encontrado

Viagem de nós nas palavras de todos
-----Entre e saia, que a casa é sua
----------Vamos recebendo a dor e a alegria,
---------------Vamos continuando. Apenas.

a0 jEiTo dE aLmAdA?


Suicidem-se os poetas!

Que as palavras andam soltas!

Suicidem-se os poetas!

Para renascer a fonte que jorra!

Suicidem-se os poetas!

Para que se ouça, finalmente, o mar!

Suicidem-se os poetas!

Para que descansem os pássaros e as flores!

Suicidem-se os poetas!

Porque só no suicídio se anuncia de novo a vida...
Havemos de descansar. Sim. Descansar
Deixar de turbilhão a vida à porta
Como maré só de ida. Devagar
Que o amor se faz paixão, mesmo morta
Quando pára cansada, de madrugada
Por entre gritos e segredos de tudo e nada
Por dentro de mim na saudade de ti
Por certo sem rumo, sem aqui ou ali
Por força da Natureza que em nós se faz
Havemos de descansar. Sim. Mesmo sem paz...

Havemos de nos ver. Sim. De nos ver
Partir da terra à proa nos ventos
Como tempestades de carinho. Nascer
Que a paixão se faz amor, nos momentos
Quando adormece, se esquece
Por entre as noites em que tudo nos aquece
Por dentro da dança que se faz canção
Por certo sem medo, sem compromisso
Por força dos sonhos que nunca temos em vão
Havemos de nos ver. Sim. Porque amor é isso!

5 de dezembro de 2006

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Andava o vagabundo à procura na cidade de um espaço para dormir. Mesmo que não fosse obrigatório sonhar (os vagabundos sonham?). Andou. Andou. Muita gente. Poucos olhos. Muito ar. Pouco calor. Andava à procura de um espaço. Simplesmente de um espaço. Para dormir. Sozinho. Porque assim o amor não o feria. Pousou junto a uma janela pouco iluminada. Sentou-se e deixou-se adormecer. Só soube no dia seguinte que estava à porta de casa... Sentiu-se feliz.


LoNgePeRt0


"Fica comigo",
dizia-lhe
a
canção
de
amor.
"Sempre. Sempre. Sempre.",
sussurou-lhe ela,
junto ao teclado.
"E agora?",
a pergunta fez sentido.
"Agora, já podes olhar para mim...",
a resposta foi surpreendente.
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Talvez nesse momento ambos perceberam que havia palavras a mais...

Cada caco que ficou partido

Cada caco que ficou partido
No caminho onde colheste o mel
Deixou-se abandonar ao desaparecido
Enraizando o mar numa simples folha de papel...

Assim ficou e assim se perdeu
Aquele jarro procurado.
A simples folha de papel ardeu
Sem que nada fosse conquistado.

O mel e o caminho
Permanecem sós,
Bordados à toa no teu ventre de linho.

Foi quando se rebentaram os nós
Que seguravam os barcos ao cais
E eu, pela primeira vez,
Desejei que não partisses mais...


3 de dezembro de 2006

NaTaL

Que dizer de uma época que juntava toda a família, numa feliz harmonia? Mais tarde vim a perceber que a família não se entende... Que dizer de uma época em que o Pai Natal aparecia como um espécie de benfeitor? Desde logo percebi que não existem benfeitores e que tudo era bem mais interessante – desde as prendas inventadas pelo avô às surpresas das ofertas da tia (às vezes, e apesar da vizinhança, era mesmo este o único momento em que havia contacto... e sorria...) Que dizer da chatice que era as lojas estarem fechadas no dia 26 de Dezembro para que pudesse gastar o dinheiro recebido na noite anterior? Hoje mal posso ouvir falar em lojas neste época... Que dizer dos rituais de preparação da ceia de Natal, em que nunca participava, mas sentia-lhes o cheiro do prazer e da tradição? Mais tarde vim a sentir que, apesar de se poder comprar tudo feito, quando o prazer se torna quase que obrigação nem sequer chega a ser masturbação... Que dizer de sempre ter percebido as fantasias natalícias que os crescidos inventavam (Pai Natal, Menino Jesus...), com a maturidade e a inteligência de quem entra no jogo? Hoje percebi que se pode brincar o ano todo... Que dizer de uma época em que havia avós? Hoje percebo que as avós são diferentes... Que dizer das viagens que não se faziam porque o Natal era à nossa porta? Felizmente, há Natal; para que hoje faça as viagens de ir até à tua porta... Que dizer de mim? Amei o Natal; hoje não o suporto.
Na minha escola... não há anjos para colorir; não há pais natais a dar presentes; não há esterismos nem mentiras. Há o respeito por cada um; há a atenção a cada um; há o amor a cada um, com ou sem Natal; há um jogo – troca de prendas –, mas que acaba sempre da mesma maneira, com a febre da posse e do pouco valor que se teve ao simples e bonito facto (apesar de obrigatório) de ter recebido um presente, a beleza da troca e da partilha; há um almoço conjunto que passa muito depressa; há um dia sem aulas. Não tenho que ser o garante de tradições. Essas fazem parte de um movimento cultural e social, que nestes tempos actuais está mais preocupado em distrair e consumir as pessoas do que em torná-las verdadeiramente felizes. E o que faço eu então? Procuro isso mesmo: tornar as crianças e os meus VERDADEIRAMENTE felizes. Com ou sem Natal.

2 de dezembro de 2006

LiMiTaÇã0


Pela noite que nos adormece os sonhos
E os acorda para os sentir crescer
Vamos sendo, monstros medonhos
Com medo de adormecer

Porque a vida nos consome e alimenta
Da palavra, da outra margem do nosso ser
Vamos sendo, operários sem ferramenta
Com medo do dia a entardecer

Calculando viagens, separando mares
Na procura do eterno impossível saber
Vamos sendo, tímidos cantares
Com medo da luta que é viver

Podemos nós estar serenos
Na profundidade dos olhares ao nascer?
Podemos nós, infinitamente pequenos
Acreditar na morte por morrer?

1 de dezembro de 2006

CaNsAç0


Sim. Viajamos então. Abra-se a porta de casa e avance-se em direcção aos
jardins. Sim. Eles existem. Tão perto de nós... Os jardins não cansarão.
Seguramente? Sim. Os jardins não cansarão. Porque nos jardins cabemos todos e
cabo só eu. Porque nos jardins podemos flutuar e cansarmo-nos. Sim. Avance-se
em direcção aos jardins. Pode ser que nos encontremos.

EnTrE

Por entre a Serra de luz e manto
O vento espalha a dor
Entreabre o brilho e o espanto
Que me faz de novo cantor

Por entre a morte na foz
Onde o rio se tem e refaz
Cada amor é em nós
Um pedaço de pão sem paz

Por entre viagens de liberdade
A alma não pára, ama
Volta de novo, sem idade
Da mais funda e longínqua chama

Por entre a morte sem dor
Como um parto em hora incerta
Gravidez sem fome ou amor
É prisão profunda de cela aberta

Como se tu fosses a flor
Que rasga a liberdade
E tudo se faz raça…
Como se o vento fosse cor
Que cobre a nossa idade
Na dor que é lenta e escassa…

Como se limpasses a vida
Que canta mar fora
Por nossa desgraça…
Como se andasses perdida
Caminhando na hora
Sem saber que se faça…

Como se sorrisses ao vento
Que cortina de brilho
Onde a luz se esfumaça
Como se houvesse só momento
Que nos desse mais um filho
E nos elevasse na praça

Como se o mundo de nós
Que alimenta o futuro
Em memória e desgraça
Como se perdêssemos a sós
O nosso porto seguro
Na corrente que passa…

Como se volta ao passado
E se reconquista a história
Se tudo é rio cansado
Sem curso nem glória?

PeRcA

Onde ficou o espaço para nós?
De que espuma é feita esta onda?
Parece-me rio, sem ser foz
Parece-me amor, mesmo que se esconda...


Onde ficou o verso, a ternura? A monte?
De que parte de mim esta fogueira?
Parece-me mar, sem ser horizonte
Parece-me eu, mesmo que não queira...

oTeMp0

O tempo que passa Leva uma flor ao vento Que se faz poesia e raça Fonte, porta e lamento Curva-se o peregrino Sem ter medo da desgra...