
Sosseguem-me os olhos nas esquinas das histórias!
Perdoem-me as raivas perdidas nas memórias!
Levantai-me! Pintai de novo a poesia!
Digam-me: andarão os abraços na ventania?!!
Fechem-se as janelas!
Curvem-se os sussuros das vielas!
Levantai-me! Pousai-me nos areais da ondulação!
Digam-me: qual o tamanho do coração?
Digam-me que sou pequenino,
Fabricante de paixões,
Andarilho aos tropeções,
Sangue, fome, vómito ou destino...
Fogueira gelada ou menino,
Cantiga enganada ou jardim...
Digam-me: posso caminhar seguro
Desejar que o rio seja puro
Cair-me só perto do fim?
Turvem-se as águas do mato!
O uniforme suado ao desbarato!
Levantai-me! Atiraram-me por terra!
Digam-me: qual a cor desta guerra?
Calem-me! Abafem-me o punho fechado!
Levem-me daqui! Soltem-me em qualquer lado!
Levantai-me! Que sufoco só de olhar!
Digam-me: vale a pena voltar a amar?
Digam-me que sou canibal,
Feio, porco e demasiadamente repetido,
Fermento podre e perdido
No meio de um mundo vazio e banal...
Semente descascada, dor forte e visceral...
Voz de monstro ou simples calor
Digam-me: de que me vale este passo triste
De vertigem que em mim ainda resiste
Porto de viagem ou campa sem flor?