7 de dezembro de 2009

tEmPo

Mergulho no teu olhar
Como se fosses o tempo meu
Pedaços de pele, vento e mar
De tudo o que tive e me aconteceu
De repente, a luz e a saudade
Pintadas de jardins cheios de histórias
E de novo o chão, e de novo a verdade
Versos, beijos, memórias
Ficam os aromas e a noite fecunda e só
Um copo de calor molhado de mim
Um trevo de silêncios e um nó
Como se tudo fosse recomeçar no fim
.
Mergulho no teu olhar
Como se fosses um regresso
Abraço longo longo longo de nunca parar
Nada mais quero, nada mais peço
De repente, a paz. O ventre da mãe
O calo da vida que passa e não cala
Como quem se perde, volta e vem
Num vagabundeante que me adormece e abala
Ficam os sorrisos, as telas dentro do peito
Um sussurro escondido de passado
E o futuro aparece outra vez refeito
No dançar do nosso outro lado!

6 de dezembro de 2009

mAdRuGaDa

.
.
.
Uma madrugada de nevoeiro, naquele frio do Inverno tão aconchegante, como uma lareira e um chá...
Hoje foi assim. A minha história voltou a pedir-me um beijo.
E eu, por entre o Tejo e o cinzento do céu, quis colorir-te da Revolução!
Bem-hajas, Maria do meu coração.
.
.
Existe uma madrugada cheia de dança
Ritmo ao nascer, corpo em liberdade total
Sorrisos suados e sonhos de esperança
Pode ser um cravo, mas é certamente Portugal!

Existe uma madrugada cheia de punhos erguidos
Uma espécie de embriaguez entre o bem e o mal
Abraços e beijos aprisionados ou adormecidos
Pode ser um cravo, mas é certamente Portugal!

Existe uma madrugada de canto e poesia
Cada passo um verso de flor, pedra e cal
Ruas de povo, gritos, tu... ele... ela... nós... Ary e alegria
Pode ser um cravo, mas é certamente Portugal!

Existe uma madrugada na ponta de uma espingarda
Carregada e pesada de amor forte e genial
De voz rouca, pele brilhante e fome suada
Pode ser um cravo, mas é certamente Portugal!

Onde pára essa madrugada, tão viva ainda em mim?
Que do esquecimento morre a alma, mesmo feliz
Que da besta cai o sangue e jorra sem fim
Os pedaços deste cravo a que chamaram país...

Onde pára essa madrugada, tão quente e tão forte?
Que deste andar às voltas eu nunca quis
Mesmo na lama, teremos que levantar desta morte
Os pedaços deste cravo a que chamaram país!

Onde pára essa madrugada, ainda fecunda e viril
Aberta nas portas desse mês que um dia se fez eterno
Nas formas do calendário sempre meu, sempre Abril
Onde ainda choro a alegria do teu abraço fraterno

5 de dezembro de 2009

Ary, Sempre!

Do teu grito de dentro sai o mundo inteiro.
Um país de luta,
De luto prisioneiro
Carregado de sangue e poesia.
Do teu suor,
As mãos...
Esse dançar eterno pela liberdade
Nos beirais dos lábios, das canções.
Qualquer coisa de saudade
Qualquer fonte de ti...
És o grito que sonho, Ary!

3 de dezembro de 2009

vEnToEmAr


Quando o mar carrega os seus sonhos
E na praia se deita adormecido
Os meus passos são doces e medonhos
À procura do que nunca podiam ter sido

O meu sangue que ferve sem se ver
Os meus lábios, ondas e vento a chegar
Porque a dor de te perder
É bem maior que a dor de te amar

Minha voz, um ronco de espuma e sargaço
Onde me perco em silêncio e solidão
Deste rio que faço e desfaço
Em cada poema, em cada canção

Se esta dor de vertigem ardida e forte
For o toque de um abraço aberto ao mar
Nunca mais será viva esta morte
E morrer será, talvez, voltar

Sinto o peso desta corrente em mim
Que se deita na pele e não sossega
Minha história, uma caminhada eterna, sem fim
Deitada na tristeza que a minha alma carrega

2 de dezembro de 2009

m0rReRsÓ

O meu poema maior é o horizonte:
Pedaços de vento e sangue quente
Que de mim jorram como fonte
Ao encontro da foz como corrente.
O meu vazio, em fogo e saudade
Deixa-me os silêncios em grito.
E assim me perco sem nó nem idade
E assim me quedo, solto e aflito.
O meu corpo, dor da minha voz
Calada num sorriso ou numa ponte
Essa, que nos faz querer morrer sós
Sempre que de novo procuramos o horizonte...

1 de dezembro de 2009

c0rEs


Amarelo areia da minha solidão
Pintada num sorriso de menino
Vagabundeando sempre sem destino
Dançando as malhas de um pobre coração

Verde o manto da saudade
Carregada de pele em sedução
Que se perde sem tempo nem razão
Forte grito de amor e tempestade

Vermelho lágrima escravo de porão
Em viagens de nada, de um livro ou veleiro
Solta ignorância do meu verso derradeiro
Morte anunciada cravada nos calos da mão

Branco lábio em beijo de canção
Janela que se abre ao teu redor
Que de ti, sabemos do vento maior
Que de mim, apenas um pequeno raspão

Negro colo de idas e regressos sem fim
Ondas velhas, novas ou em vão
Labirinto que se desfaz porque não
Parideiro de um novo abraço porque sim


29 de novembro de 2009

qUeRoDeIxAr

Queria deixar-te um rio
Feito de calor e de frio
Uma torrente e uma fonte
Um pequeno cheiro de mim
Que fica em nós no horizonte
Que se perde sem nunca ter fim
Só para te abraçar...
Queria deixar-te o mar.

Queria deixar-te o vento
Esse que existe e que invento
Uma tempestade e uma brisa
Como um beijo de aromas e doces
Que se faz na mão mais precisa
Na mão tua como se fosses
Do tamanho do teu olhar...
Queria deixar-te o mar...

Queria deixar-te o meu peito
De amor e paixão mais que imperfeito
Um vagueamento apenas, silêncio e grito
Poema maior, o mundo!
Tudo aquilo que em nós acredito
Como um sangue vermelho e profundo
Que de tão quente nos vai desaguar
Neste rio, vento, peito e mar
Que em ti te quero e vou deixar.

AmInHaSoLiDã0


Cada silêncio da minha solidão
Pode ser um verso ou um deserto
Pode ser o meu grito mais certo
O calo maior que tenho no coração
.
Cada morte da minha solidão
Pode ser um doce forte ou um jardim
Pode ser uma história ainda sem fim
O colo maior que tenho no coração
.
Cada fogo da minha solidão
Pode ser um canto de luta e coragem
Pode ser um horizonte, uma viagem
O calo maior que tenho no coração
.
Cada passo da minha solidão
Pode ser um encontro em ti presente
Pode ser um abraço vermelho e quente
O colo maior que tenho no coração
.
Cada solidão pode ser eu assim vestido
E tudo regressa a mim assim perdido
Pode ser uma dor que amanhece sozinha
Cada solidão que faço nossa, faço minha!

26 de novembro de 2009

f0MeDoVeNt0


De olhar pousado na solidão
Sirvo a fome do vento
Piso os calos da rouquidão
Porque sem ti, não sei se me aguento

Perco-me nos passos da imensidão
No ronco forte deste sonho lento
És assim, doce manto e canção
Dentro de mim, como mel e alimento

Felina, fera e perdição
Névoa, tabuleiro e cimento
Voltas sempre no regresso da minha mão
Partes no perfume que no meu peito acorrento

Gota de lágrima e perdão
Felicidade nua e sofrimento
Devolves-me o olhar em inquietação
E meu corpo em cada momento

De ti, de mim, memória e alçapão
Fortaleza de viagens e esquecimento
Este querer calado em sofreguidão
Este ser e ter, como um monumento

25 de novembro de 2009

mEuMaR


Só o teu respirar me quebra este silêncio. Nem o poema nem o véu. Habituei-me a ver-te no leito sem dizer nada. Só olhar. Por isso, meu doce irmão, sempre que o teu sorriso me cobre, sei que posso adormecer...

24 de novembro de 2009

0vAzIoDeTi


Embriagado, solta-se o vagabundo. Carrega a noite nos olhos. Em lágrimas brilhantes e doces. As ruas nuas suas cruas perdem-se no meio dos seus passos silenciosos e leves. Que do peso da sua vida existe uma chaga na memória - era poeta!
A Bela Amante pousou-lhe o corpo nas mãos. O tempo fez-se areal como se um jardim se pintasse no seu sorriso. Afinal, cada solidão transformava-se num novo manto de versos e canções. Mesmo no labirinto mais secreto da sua existência... Mesmo no precipício mais longo da sua voz... Mesmo na inquietação das suas vestes.
Pobre vagabundo. Acorrentado e livre no desejo colorido e negro dos seus gritos.
Pobre Bela Amante. Dançarina feroz na saudade das distâncias.
Pobre de mim, simples mortal, perdido no cansaço de nada contar... de tudo esperar... mesmo o vazio de ti.

oTeMp0

O tempo que passa Leva uma flor ao vento Que se faz poesia e raça Fonte, porta e lamento Curva-se o peregrino Sem ter medo da desgra...