6 de novembro de 2009

VeRtIgEmFeItAtEmPo

Monte a monte o voo da andorinha rasgou-lhe o coração. Era Outono mas estava tanto calor que o ar fresco parecia cortar. Como um punhal. Seguiu o seu caminho endiabrada e serena, na inquietação do olhar vagabundo e da pele feita seda. O seu corpo era um manto ou um jardim. Deixou-se levar sem receio. Sabia que a chegada não seria uma nova partida. Monte a monte, na solidão dos silêncios. Nas memórias perdidas das rugas. Nos passos firmes da autenticidade. Cada casa um lar de amor e crianças. Cada janela uma saudade. Cada canto uma tela aberta aos céus. Divinos leitos de perfume e reflexos onde todos eram poetas. Ou amantes. Que o desejo das andorinhas é sempre este voo que se (re)faz como quem respira. É sempre a aterragem de quem chega a um lugar desconhecido que afinal é o seu. Monte a monte. No ritual da vertigem feita tempo...

5 comentários:

Maria disse...

Passo a passo o poeta fez o seu caminho. Lentamente. A cada minuto o pensamento voava em completa liberdade. O vagabundo acompanhou-o durante algum tempo. Depois cruzaram-se com uma varanda cheia de flores, onde uma abelha pintada de todas as cores retirou mais um pouco de pólen de um cravo vermelho e levantou vôo. Suavemente. Aí o vagabundo desviou-se do caminho do poeta. Chegava a primavera. Voltaram a cruzar-se no final do outono, subiram montes e desceram aos rios, no ritual do tempo feito vertigem.

Abraço-te, com saudades

Anónimo disse...

Cada palavra Tua uma vertigem...
Não sei comentar a beleza feita ternura deste poema.
Só sei que ao ler sorri e consegui ver o voo que se (re)faz como quem respira.

Um beijo

Som do Silêncio disse...

Vim ler-te, Pedro!

Deixo um beijo

Som

mariam [Maria Martins] disse...

Pedro,

"Divinos leitos de perfume e reflexos onde todos eram poetas" ... mas só a escrita d'alguns consegue fazer voar o espirito, calar o feio da vida ou causar arrepio... a tua, consegue! :)

Gosto muito de 'te' ler...

e... gosto muito de ler os comentários que a Maria aqui deixa!

um grande abraço e o meu sorriso :)
mariam

Maria disse...

Deixa que te abrace. Agora. Tanto.
Porque me apetece...

oTeMp0

O tempo que passa Leva uma flor ao vento Que se faz poesia e raça Fonte, porta e lamento Curva-se o peregrino Sem ter medo da desgra...