20 de janeiro de 2017

n0iTe

É de noite que tudo acontece.
É de noite que sou dono de tudo.
É de noite,
Alma que na minha vida tece
O meu grito canto, o meu grito mudo.

É de noite que sou o tal vadio
É de noite, em tempestades de ser
É de noite,
Alma que me traz calor e frio
De aconchego quente que nem chega a adormecer...

É de noite que me lembro de ti.
É de noite que sou poeta e vagabundo.
É de noite,
Alma de nunca estar aqui
Porque procuro sempre o meu lugar no mundo.


Para o meu amigo André, que reclamou o meu poema.

18 de janeiro de 2017

iNsPiRaÇã0

De noite, na madrugada de mim
Perto do mar, do infindável mar
Encontro um tesouro seguro:
A vontade de te ter e amar
Em leito corrente e puro
Onde me possa desaguar.

De noite, na madrugada de mim
Junto ao peito ardente
Volto-me de novo em canto meu:
Quero-te, minha doce pele quente
Que um dia me teve e prendeu
Fazendo de todo o tempo o presente!

16 de janeiro de 2017

aMiGoDeAbRaÇo

Se eu soubesse ser
Saberia também estar
Embora às vezes possa parecer
Que não consigo nem respirar
E como quem não respira, morre
Serei eu morta em respiração?
Ou é apenas esta vida que corre
Sem sequer eu lhe agarrar a mão?
Deixar-me não ser ou não estar
É um rio seco na montanha
Por isso se for preciso gritar
Ouvir-se-á a minha voz tamanha
E o meu amigo de abraço
Virá dar-me a cheirar uma flor
Porque tudo o que eu (lhe) faço
É feito de mim, isto é, de amor!

10 de janeiro de 2017

Nã0

Não me sangra mais a alma de sonhar
Não sonho mais rios a desaguar
Não desaguo mais a saudade em canções
Não canto mais amores e inquietações
Só me quero a mim.

Não me sussurro mais fortes gritos
Não grito mais os ventos interditos
Não interdito mais o sol no meu silêncio só
Não silencio a solidão por entre ternura e pó
Só me quero a mim.

Não te procuro mais nesta embriaguez
Não me embriago mais no vulcão da pequenez 

Não me atraso, não me deixo ir assim
Só me quero a mim!

2 de janeiro de 2017

oUsAdIaDoVuLcÃo

Será na ousadia do vulcão
Na embriagada loucura da semente
Será um passo meu feito canção
Um caos de terra, fértil quente.

Será no voo rasgante do colibri
No tempo parado a tremer
Será um passo meu longe daqui
Um sopro de sangue, corpo a ferver.

Será no cume de uma pele cheirosa
No mar aberto em mim lançado
Será um passo meu, flor e prosa
Um poema mais, grito entrelaçado.

Serás tu, serei eu, seremos nós!
A vontade viva da plantação
Será um passo corrente em nascente e foz
Assim tudo, na ousadia do vulcão...

30 de dezembro de 2016

aLv0

Quando acordei, senti-me estranho por tal sensação. Um repentino cansaço e vontade de correr. Uma euforia suada sem destino. Foi quando acendi a luz no quarto e reparei que ainda era de noite. Afinal o tempo está também cá fora, pensei. E foi nesse concluo fantástico que me levantei e bebi um copo de água na cozinha. Afinal de contas somos animais. Quis telefonar ao meu irmão mas não encontrei o telefone. Quis escrever-te mas não vi a caneta. Quis obviamente cantar mas a voz saia-me demasiadamente aguda. Quis então simplesmente olhar à minha volta e era de noite. Regressar de onde viera não estaria nos meus planos e assaltava-me a ansiedade de fazer qualquer coisa. Uma desbunda na vizinha de baixo ou uma conversa de bêbados algures na cidade. Quem sabe um passeio pelo rio simplesmente. Sentia-me estranho ainda e mal conseguia sossego para sequer pensar. Estaria com pressa?

29 de dezembro de 2016

vEnHaAtEmPeStAdE

Da lápide solitária que se estende no horizonte
Do sossego inquieto em silêncios perturbados
Venha a água, maior sémen do monte
Venha a tempestade.

Do romper da queimada antiga
Do cheiro nauseabundo e velho
Venha a paz, em peregrinação amiga
Venha a tempestade.

Da viagem cega, às voltas de regresso
Do tambor alvo no coração duro
Venha a mesa, em eterno recomeço
Venha a tempestade.