28 de dezembro de 2006


PaSsAd0


E se te encontrasse? Mesmo que no meio de uma grande multidão te descobriria. Dir-te-ia que tudo isto era uma mentira e que estava feliz por ti. Que podia ser o padrinho do teu filho. Que me refiz sem retalhos e estou bem. Que não ando a fugir nas palavras ou nos poetas. Que afinal, o tempo existe e é eternamente irreversível. Sim. Se te encontrasse? Seguramente estarias tão surpreendente que o dia ficaria mais quente. Iria direito a ti, a vós, com o olhar húmido das noites suadas e mentirosas. E depois? Talvez te diga "Bom dia..." ou "Olha! Quem está por cá!!!" ou "Afinal existes... por isso ando morto!"

VeRdAdE

E se tudo fosse dito verdadeiramente?

Se as barreiras fossem somente os rios e os tempos?

Se as palavras não mentissem e não se enganassem?

Se tudo fosse ser?

De que serviria então a poesia?

fElIzMeNtE

Felizmente o silêncio do rio.
Felizmente a corrente sem dono.
Felizmente o Inverno e o vazio.
Felizmente a fome do abandono.
Felizmente a palavra solidão.
Felizmente a imagem do nada.
Felizmente ou talvez não.
Felizmente o pó da estrada.
Felizmente o sol que aquece.
Felizmente existimos assim.
Felizmente o mundo estremece.
Felizmente sentimos o fim.
Felizmente talvez a norte.
Felizmente talvez infinito.
Felizmente sem mar nem sorte.
Felizmente o grito aflito.
Felizmente tudo vai e tudo vem.
Felizmente os rios, os mares por aí.
Felizmente estás sempre tu, mãe.
Felizmente eu choro por ti.
Felizmente a dor de tanto te ter.
Felizmente o vazio de tamanha espera.
Felizmente a luz deste amanhecer.
De quem volta sempre com a Primavera.

Um beijo, felizmente.

27 de dezembro de 2006

f0rTe


Sempre
que te
mergulho
inundas-me...




BeIj0

Se o meu beijo pudesse entrar na tua cama
Aconchegava-se no teu regaço quente
Espalharia o sabor doce de quem se ama
Para adormecer eternamente...
Porque eterno é o sono dos amantes
Porque eterno é o futuro do antes
Porque eterna é a fogueira que há em mim
Porque eterno é isto: não ter fim.


Se o meu beijo pudesse entrar na tua cama amanhã seria nunca...

26 de dezembro de 2006

iR


Passaremos então perto das ondas.

Deixaremos que cubram nossos pés.

Deixaremos que nos façam saltar de mansinho pelo frio de Inverno.

Então correremos.

Até ao fundo da praia.

Até ao silêncio das marés.

Até à vertigem de nós.

Então pousaremos.

Na areia seca e molhada dos tempos.

Na espuma dos tempos.

Nas ventanias dos tempos.

Então adormeceremos.

Por fim sós.

Por fim contigo.



vEm

Leva-me no teu olhar para reflectirmos o mundo!

PeRdEr-Te...

Perdi-me de tanto te ter
De tanto silêncio cruel

Perdi-te de tanto te escrever
Sabor de trigo, vento e mel

Perdi-me de tanto te querer
De tanta cor vertigem poesia

Perdi-te de tanto amanhecer
Em qualquer noite em qualquer dia

Perdi-me de tanto não ver
De tanto cansaço em suor de mar

Perdi-te de tão bom te perder
Para de novo te ter ao te encontrar

25 de dezembro de 2006

PoEtAs


Todos os POETAS saberão existir!
.
Todos eles, mas verdadeiramente TODOS, nos farão voar até nunca.
.
Todos os poetas os EUS os Meus os TeUs os NoSs0s!
.
Paremos então para os ver passar. E depois olhemos uns para os outros dizendo: "Olha... vai ali um poeta!"

.
Talvez se abram os livros e as folhas das árvores colorem as palavras. Talvez se faça riso ou choro o doce duro caminhar das palavras.


Serei EU, sim senhor.


Para te ver passar ou para te abraçar.

24 de dezembro de 2006

F N E A L T I A Z L

............................................................................................................................................................................................................................................................

Porque nesta época as palavras ganham mais peso e cor, às vezes preferia ouvir o silêncio. Deixar que os ecos de amor e paz me acordem dos pesadelos e sonhos todos do mundo. Para depois abrir os olhos devagarinho.

.

Para depois te pedir de novo: não percas as tuas palavras. Porque elas são de todos os dias todos as noites todos os natais e mudanças e dores e mares e a infinita poesia que brota de nós.

.

Feliz quadra. Quentinha e aconchegante.

............................................................................................................................................................................................................................................................

21 de dezembro de 2006

PaRtE dE mIm

Que parte de mim ecoa por aí nas palavras de andar atrás de tudo?
Que parte de mim te encontra sem te ver sem te encontrar por sempre te perder?
Que parte de mim existe fora de nós no dilúvio do grito solto e mudo?
Que parte de nós permanece passado de novo riso, fonte da água a chover?


Que parte parte? Que parte fica?
Pobre, fútil, rica?
Que parte brota? Que parte arde?
Se tudo é tão cedo e tão tarde...

s0m0s

Será que no vento cabem os nossos gritos?
Será que se aconchegam os nossos sonhos?
Os nossos medos medonhos?
Amores aflitos?


Será que as flores carregam o nosso perfume?
Será que se colorem os nossos cantos?
Os nossos desmaios em queixume?
Em dor e espantos?


Será que existimos realmente...

sIlÊnCi0

Roubando .................. as vozes de mim,
............................................. na tortura das noites longas.................................
na procura dos crepúsculos mais laranjas.............................
nas..................................................... palavras dos cânticos ..........................................
mais impossíveis...................................................................
................................................................... no encontro ........................................................................ das ilhas mais secretas......................................................................
........................................................... em .................................................................. tudo
que do meu corpo .................................................
me apetece
não me apetece.
............................................................ Em tudo ..............................................................
que o meu coração ........................................................
............................................................................ implora na corrente .........................................
da rebentação.
Em tudo de ser EU e tu não.

19 de dezembro de 2006

DiA-a-DiA

Quando acordar vou abrir a janela e deixar entrar o teu respirar... Abrirei os olhos num azul muito grande e serás pintura na minha manhã... Abrirei os braços até o topo e serás corpo no meu espreguiçar... Abrirei um abraço até à vida e serás regaço de novo a amar... Abrirei meu beijo ao mundo... e seremos vivos. Mais uma vez.
Quando acordar vou abrir a janela e deixar entrar o teu respirar... Abrirei os olhos num azul muito grande e serás pintura na minha manhã... Abrirei os braços até o topo e serás corpo no meu espreguiçar... Abrirei um abraço até à vida e serás regaço de novo a amar... Abrirei meu beijo ao mundo... e seremos vivos. Mais uma vez.

NóS




Simplesmente olha-me...


e deixa que o teu brilho nos encoste.


FiQuEi

E eu... eu fiquei tão tarde em mim, tão nunca.
Fiquei rompendo
palavras, de montes e vales de rios de correr para dentro para
fora de partir voltar e regressar ao que nunca era.
Fiquei, simplesmente.
Na nudez do transporte.
Na penunbra da cegueira.
No silêncio da revolta.
Fiquei.
Nem parto.
Não me atrevo sequer.

qUiEtUdE

Passeou junto ao rio,
Passeou junto ao mar,
Deixou-se morrer de frio,
Deixou-se morrer de amar...

Deixou-se iluminar pela Lua,
Deixou-se na noite a vida inteira,
Passeou sem saber que estava nua,
Passeou sem saber qual a canseira...

Quis voar junto ao Sol quente,
Quis cantar esta inquietação,
Adormeceu só, no meio de tanta gente,
Adormeceu quieta, sem dor nem perdão...

Adormeceu chorando palavras escolhidas,
Adormeceu porque tudo era sonho
Quis-te em mim, em viagens loucas e perdidas,
Quis-te em mim e em mim te ponho!

http://voandoai.blogspot.com/

Sufoco nas suas palavras. Como se soluçasse. Sorrisse e chorasse a cada esquina. Procurando não acreditar que não existe nada maior. Sufoco nas suas palavras, Teresa. E isso faz-me respirar melhor. Por isso volto e volto e volto e volto...

18 de dezembro de 2006

SeReMoS

Seremos então silêncios e lágrimas... Seremos manhãs de brilho e noites de trilho... Seremos a procura; a chegada; a perca... Seremos a dança nas estrelas de dentro... Seremos poetas e novamente fecundados... Seremos nós, nunca calados... Seremos luz, fogo, mar, vontade, grito, liberdade!
Seremos.
Por força da verdade.

17 de dezembro de 2006

InFâNcIa

Que nos falta?
Sim, que nos falta para a infância?
Quantos quilómetros, quantas horas faltam para chegar?
Chegamos? Chegaremos?
Porquê? Sim, porquê?
Que nos falta então?
Anikibóbó... és tu.
O primeiro a entrar?
Não. O último a sair.
Ó mãe! Aquele miúdo bateu-me...
O meu pai é polícia.
Eu tenho um carro maior que o teu!
Pudera...
Que nos falta?
Sim, que nos falta?
Não gosto da sopa; não quero ir para a cama; quero ver os desenhos animandos; tenho medo do silêncio...
Q
u
e

n
o
s

f
a
l
t
a
?

Sim, que nos falta se tudo é... SER?

16 de dezembro de 2006

SaUdAdE


Passeou junto ao rio,
Passeou junto ao mar,
Deixou-se morrer de frio,
Deixou-se morrer de amar...
Deixou-se iluminar pela Lua,
Deixou-se na noite a vida inteira,
Passeou sem saber que estava nua,
Passeou sem saber qual a canseira...
Quis voar junto ao Sol quente,
Quis cantar esta inquietação,
Adormeceu só, no meio de tanta gente,
Adormeceu quieta, sem dor nem perdão...
Adormeceu chorando palavras escolhidas,
Adormeceu porque tudo era sonho,
Quis-te em mim, em viagens loucas e perdidas,
Quis-te em mim e em mim te ponho!
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Tud0


E se fosses

fogueira

de me

aquecer

a

vida

inteira?

14 de dezembro de 2006

m0RtE

Mãe, porque morreste?
Porque as pessoas têm de morrer. Todas as pessoas morrem.
Mas tu és a minha mãe...
Sim, sou uma pessoa...
E eu também vou morrer, mãe?
Sim, quando fores velhinha.
E o que faço até lá?
Vives. Que viver é bom.
E tu?
Eu também viverei. Nas memórias de todos. Nas suas palavras. Nos seus sorrisos e nos seus gritos. Na saudade.
E isso é bom, mãe?

É. Por isso é que a morte não existe.
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13 de dezembro de 2006

GrIt0

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Que dizer da inquietação, do desassossego que nos faz poetas e pintores de palavras?
Que dizer deste respirar trémulo e ofegante que nos afoga todos os dias em nós mesmos?
Que dizer dos outros, que estão do outro lado não se sabe de quê porque tão próximos?
Que dizer de tudo o que não queremos, de tudo o que desejamos ardentemente?
Que dizer se os silêncios nos soam a dança?
Que dizer, poeta, se respiramos a vontade de dizer...?
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tU


De tanto voar o pássaro encontrou um ninho bom.......... De tanto dançar o cortejo subiu à montanha.......... De tanto cantar a luz se fez silêncio e som.............. De tanto esperar a palavra ganhou a cor tamanha...................
.
.
.
.
.
.......O voo dos poetas.
...................A dança dos profetas.
.................................O canto dos amantes. ...............................................O encontro de ti.

12 de dezembro de 2006


E eu deixei-me estar.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . No embalo dos poemas.

.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Na maresia dos poentes.
.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Adormeci.
.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Pousado em mim.

GoTaD'áGuA

Pode o amor andar em perigo se tão bem canta?
.
Gota de água é lágrima de rio, é o rio inteiro, a foz!
.
Deixem correr as gotas e vereis as correntes a iluminar todos os espelhos!
.
Deixem-se correr as gotas e as vozes das gotas e as cores das vozes das gotas e as palavras das cores das vozes das gotas e os silêncios das palavras das cores das vozes das gotas e as perguntas dos silêncios das palavras das cores das vozes das gotas e....
.
.
.
.
.
.
Deixem!

11 de dezembro de 2006

E sE...?

E se os meus beijos carregassem todo o calor dos tempos? Se cada sonho sonhado pudesse roubar um só beijo somente ao arco-íris e pintar uma tela no teu corpo? Se bailassem com o fogo de artifício que ilumina os céus das nossas vidas?

E se os meus beijos se perdessem nos caminhos mil do futuro e recusassem cada chamamento? Se tricotassem o véu que tapa o amor por dentro de cada um de nós? Se adormecessem no regaço da Lua sem nada saber? Se ancorassem nos longínquos portos de desabrigo e paixão? Se bebessem de ti todos os dias?

E se os meus beijos não fossem...?

10 de dezembro de 2006

c0rAgEm?

Podíamos inventar infinitas palavras que o amor será sempre maior!
...
Podíamos inventar infinitas palavras que o amor será sempre surpresa!
...
Podíamos inventar infinitas palavras que o amor será sempre eterno!
...
Podemos inventar infinitos amores que existirão sempre palavras para ele!
...
"Para quê então falar do amor?", perguntou o céptico.
...
"Para que hajam poetas...", respondeu o amante.
...
"De que valeriam então as palavras?"
...
Então o mundo calou-se e o amor adormeceu.
...
"Até no silêncio há palavras!", gritou o céptico."
...
O silêncio são os versos maiores dos poetas.", disse o amante.
...
"O silêncio que vem depois das palavras..."
..................
Então o mundo calou-se e o amor acordou.

N...T...PaSs0s


Nos teus passos me perco sem o tempo do regressoNos teus passos aprecio cada pedaço da passagemOs teus passos são a dança que te peçoPorque tudo é estar contigo e viagem...

c0r


"Apertas-me?", perguntou a mão.
"Claro!", respondeu a outra...
"De que me vale existir se não te apertar?"
"Constróis?", perguntou de novo a mão.
"Claro!", respondeu de novo a outra...
"De que me vale existir se não construir?"

"Ama-me...", pediu.



E as mãos foram.

9 de dezembro de 2006

DaSoNdAsDoAm0r

Peso o meu cansaço sobre o futuro.
Só encontro o nosso amor.
Figo doce gengibre maduro.
Mistura de desejo e sabor.

Sei de mim nas lágrimas dos dias,
Na fúria do mar.
Onde me embalam as ventanias
De cada pedaço que ficou por amar.
Sei de mim no desejo desta sorte
Que de tudo só espero mais uma morte...

Posso afogar-me nas lágrimas que desaguam em mim,
Que inundam a foz da minha alma,
Que secam a fonte da secreta nascente
Onde o amor se refaz todos os dias
E se suicida só porque existe?

Posso afogar-me e voltar a banhar-me em sossego
Ou serei sempre náufrago desta viagem
Sem destino onde nem a morte será descanso?
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Posso beijar-te e adormecer, talvez feliz?

8 de dezembro de 2006

O filho do senhor Rafael

O senhor Rafael era rico e disso não fazia segredo. O filho do senhor Rafael menos ainda, se pensarmos que tinha 7 anos e andava na escola – quer dizer, no colégio –, como quase todos os meninos da sua idade.
– Quase todos?!! – Perguntou-me um dia.
– Sim. Quase todos. Há muitos meninos da tua idade que não vão para a escola. – Respondi-lhe.
– Porque não querem? – Continuou a mostrar-se interessado.
– Não. Porque não podem. – Disse-lhe, sem no entanto transmitir uma carga demasiadamente pesada à minha opinião.
– Não podem porquê? – Insurgiu-se ele.
– Olha, por várias razões: porque não há escolas perto das suas casas, porque precisam de trabalhar, porque não têm dinheiro… – Ia-lhe dizendo, calmamente, assim em tom de avô paternal.
– Não têm dinheiro?!!! – Espantou-se o filho do senhor Rafael.
– Sim. – Respondi-lhe, seco. Como se ele tivesse culpa de ser filho do senhor Rafael!
– E eu posso comprar uma escola e dar a esses meninos? – Sugeriu, inocente.
– Poder, podes. Só que não é assim tão fácil. – Fui-lhe dizendo, atrapalhado. – Para uma escola funcionar é preciso muito mais do que dinheiro.
– E isso que é preciso para uma escola funcionar como é que se arranja? – O seu entusiasmo era visível.
– Com dinheiro… – O meu embaraço era mais que evidente.
– Então… – Sorriu, como se tivesse descoberto a solução do mundo.
– Por exemplo… – Comecei, decidido. – Na Ásia, na América do Sul ou em África há muitos meninos que não conseguem nem sequer comer ou vestir e muito menos ir à escola.
– África? – Intrigou-se.
– Sim. África. Por exemplo. – Confirmei.
– É grande África? – Curiosidade…
– É enorme! E lindo. Do outro mundo… Quer dizer… do nosso mundo, mas tão maravilhoso que até custa a acreditar que também se encontre lá tamanha pobreza e decadência! – Letal.
– Posso comprar… – Laboratorial.
– Não. Não podes. Nem tu nem ninguém. – Decidido. – África é um Continente, cheio de países e os países não se compram.
– O meu pai acha que não. – Adulto. – Ele diz que o mundo é de meia dúzia de pessoas.
– Pois… Mas isso é outra conversa.
E aqui acaba o meu diálogo com o filho do senhor Rafael. Quer dizer… não acaba. Eu é que decidi acabar. Realmente! Onde chega a infância… Por um lado admite que tudo é pertença dos poderosos; por outro, ao mesmo tempo, acha-se capaz de ser também poderoso, ao pensar que o seu dinheiro pode comprar isto e aquilo… Estou fascinado.
Fascinado com esta linguagem da fantasia que nos vai permitindo escrever sobre tudo e mais alguma coisa e ir expondo as nossas inquietações através de personagens criados propositadamente. Fascinado com a nossa capacidade de sermos ridículos quando não assumimos as palavras para dizer o que pensamos. Sim, as palavras. As palavras certas e certeiras. E sabem porquê? Porque seria fácil e quem sabe popular elaborar um escrito politica e eticamente fervoroso contra o domínio dos poderosos e da finança; um texto forte e directo. Sem poesia e até com vocabulário mais agressivo.
– Porque não podemos comprar as palavras? – Interrogou-me de novo o filho do senhor Rafael.
– As palavras não se vendem. Todos as podemos usar. – Respondi. – Temos é de ter cuidado com a forma e o lugar onde as usamos.
– Porquê? – Cirúrgico.
– Ora… porque as palavras que dizemos ou escrevemos normalmente não são ouvidas ou lidas da forma como queremos. – Catedrático.
– Não?! E se comprarmos também quem as ouve ou as lê? – Insistente!
– Deves pensar que tudo se compra, ó rapazinho! – Farto.
– O meu pai acha que sim. – De novo.
Andamos às voltas nos mesmos problemas e não chegamos a lado nenhum. Corremos o risco até de baralhar alguns mais lúcidos e arrumadinhos na vida e nos princípios. “Poderemos comprar um fim?”, ter-me-ia perguntado o filho do senhor Rafael. Mas sabem porque não pergunta?
Porque o filho do senhor Rafael não existe. Porque cada um de nós é filho do senhor Rafael.

7 de dezembro de 2006

auSêNciAdaiDa


"Procurem-me. Estarei junto ao mar!"
Perto de um qualquer vazio, tão cheio de água e movimento.
.
"Procurem-me. Estarei lá. Seguramente. Feliz. Naturalmente."


"E as palavras?", pergunta ela.
"Sim, as palavras...", pergunta ele.


"Junto ao mar as palavras são todas. Qual é o problema?"


Bom fim-de-semana a todos.

6 de dezembro de 2006

SeR

Viagem de volta e ida
-----Entre o dia, a noite e o desespero
----------Vamos correndo, amando em cada despedida,
---------------Vamos perdendo e ganhando a cada amor encontrado

Viagem de nós nas palavras de todos
-----Entre e saia, que a casa é sua
----------Vamos recebendo a dor e a alegria,
---------------Vamos continuando. Apenas.

a0 jEiTo dE aLmAdA?


Suicidem-se os poetas!

Que as palavras andam soltas!

Suicidem-se os poetas!

Para renascer a fonte que jorra!

Suicidem-se os poetas!

Para que se ouça, finalmente, o mar!

Suicidem-se os poetas!

Para que descansem os pássaros e as flores!

Suicidem-se os poetas!

Porque só no suicídio se anuncia de novo a vida...
Havemos de descansar. Sim. Descansar
Deixar de turbilhão a vida à porta
Como maré só de ida. Devagar
Que o amor se faz paixão, mesmo morta
Quando pára cansada, de madrugada
Por entre gritos e segredos de tudo e nada
Por dentro de mim na saudade de ti
Por certo sem rumo, sem aqui ou ali
Por força da Natureza que em nós se faz
Havemos de descansar. Sim. Mesmo sem paz...

Havemos de nos ver. Sim. De nos ver
Partir da terra à proa nos ventos
Como tempestades de carinho. Nascer
Que a paixão se faz amor, nos momentos
Quando adormece, se esquece
Por entre as noites em que tudo nos aquece
Por dentro da dança que se faz canção
Por certo sem medo, sem compromisso
Por força dos sonhos que nunca temos em vão
Havemos de nos ver. Sim. Porque amor é isso!

5 de dezembro de 2006

- | / \ | -


Andava o vagabundo à procura na cidade de um espaço para dormir. Mesmo que não fosse obrigatório sonhar (os vagabundos sonham?). Andou. Andou. Muita gente. Poucos olhos. Muito ar. Pouco calor. Andava à procura de um espaço. Simplesmente de um espaço. Para dormir. Sozinho. Porque assim o amor não o feria. Pousou junto a uma janela pouco iluminada. Sentou-se e deixou-se adormecer. Só soube no dia seguinte que estava à porta de casa... Sentiu-se feliz.


LoNgePeRt0


"Fica comigo",
dizia-lhe
a
canção
de
amor.
"Sempre. Sempre. Sempre.",
sussurou-lhe ela,
junto ao teclado.
"E agora?",
a pergunta fez sentido.
"Agora, já podes olhar para mim...",
a resposta foi surpreendente.
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-
Talvez nesse momento ambos perceberam que havia palavras a mais...

Cada caco que ficou partido

Cada caco que ficou partido
No caminho onde colheste o mel
Deixou-se abandonar ao desaparecido
Enraizando o mar numa simples folha de papel...

Assim ficou e assim se perdeu
Aquele jarro procurado.
A simples folha de papel ardeu
Sem que nada fosse conquistado.

O mel e o caminho
Permanecem sós,
Bordados à toa no teu ventre de linho.

Foi quando se rebentaram os nós
Que seguravam os barcos ao cais
E eu, pela primeira vez,
Desejei que não partisses mais...


3 de dezembro de 2006

NaTaL

Que dizer de uma época que juntava toda a família, numa feliz harmonia? Mais tarde vim a perceber que a família não se entende... Que dizer de uma época em que o Pai Natal aparecia como um espécie de benfeitor? Desde logo percebi que não existem benfeitores e que tudo era bem mais interessante – desde as prendas inventadas pelo avô às surpresas das ofertas da tia (às vezes, e apesar da vizinhança, era mesmo este o único momento em que havia contacto... e sorria...) Que dizer da chatice que era as lojas estarem fechadas no dia 26 de Dezembro para que pudesse gastar o dinheiro recebido na noite anterior? Hoje mal posso ouvir falar em lojas neste época... Que dizer dos rituais de preparação da ceia de Natal, em que nunca participava, mas sentia-lhes o cheiro do prazer e da tradição? Mais tarde vim a sentir que, apesar de se poder comprar tudo feito, quando o prazer se torna quase que obrigação nem sequer chega a ser masturbação... Que dizer de sempre ter percebido as fantasias natalícias que os crescidos inventavam (Pai Natal, Menino Jesus...), com a maturidade e a inteligência de quem entra no jogo? Hoje percebi que se pode brincar o ano todo... Que dizer de uma época em que havia avós? Hoje percebo que as avós são diferentes... Que dizer das viagens que não se faziam porque o Natal era à nossa porta? Felizmente, há Natal; para que hoje faça as viagens de ir até à tua porta... Que dizer de mim? Amei o Natal; hoje não o suporto.
Na minha escola... não há anjos para colorir; não há pais natais a dar presentes; não há esterismos nem mentiras. Há o respeito por cada um; há a atenção a cada um; há o amor a cada um, com ou sem Natal; há um jogo – troca de prendas –, mas que acaba sempre da mesma maneira, com a febre da posse e do pouco valor que se teve ao simples e bonito facto (apesar de obrigatório) de ter recebido um presente, a beleza da troca e da partilha; há um almoço conjunto que passa muito depressa; há um dia sem aulas. Não tenho que ser o garante de tradições. Essas fazem parte de um movimento cultural e social, que nestes tempos actuais está mais preocupado em distrair e consumir as pessoas do que em torná-las verdadeiramente felizes. E o que faço eu então? Procuro isso mesmo: tornar as crianças e os meus VERDADEIRAMENTE felizes. Com ou sem Natal.

2 de dezembro de 2006

LiMiTaÇã0


Pela noite que nos adormece os sonhos
E os acorda para os sentir crescer
Vamos sendo, monstros medonhos
Com medo de adormecer

Porque a vida nos consome e alimenta
Da palavra, da outra margem do nosso ser
Vamos sendo, operários sem ferramenta
Com medo do dia a entardecer

Calculando viagens, separando mares
Na procura do eterno impossível saber
Vamos sendo, tímidos cantares
Com medo da luta que é viver

Podemos nós estar serenos
Na profundidade dos olhares ao nascer?
Podemos nós, infinitamente pequenos
Acreditar na morte por morrer?

1 de dezembro de 2006

CaNsAç0


Sim. Viajamos então. Abra-se a porta de casa e avance-se em direcção aos
jardins. Sim. Eles existem. Tão perto de nós... Os jardins não cansarão.
Seguramente? Sim. Os jardins não cansarão. Porque nos jardins cabemos todos e
cabo só eu. Porque nos jardins podemos flutuar e cansarmo-nos. Sim. Avance-se
em direcção aos jardins. Pode ser que nos encontremos.

EnTrE

Por entre a Serra de luz e manto
O vento espalha a dor
Entreabre o brilho e o espanto
Que me faz de novo cantor

Por entre a morte na foz
Onde o rio se tem e refaz
Cada amor é em nós
Um pedaço de pão sem paz

Por entre viagens de liberdade
A alma não pára, ama
Volta de novo, sem idade
Da mais funda e longínqua chama

Por entre a morte sem dor
Como um parto em hora incerta
Gravidez sem fome ou amor
É prisão profunda de cela aberta

Como se tu fosses a flor
Que rasga a liberdade
E tudo se faz raça…
Como se o vento fosse cor
Que cobre a nossa idade
Na dor que é lenta e escassa…

Como se limpasses a vida
Que canta mar fora
Por nossa desgraça…
Como se andasses perdida
Caminhando na hora
Sem saber que se faça…

Como se sorrisses ao vento
Que cortina de brilho
Onde a luz se esfumaça
Como se houvesse só momento
Que nos desse mais um filho
E nos elevasse na praça

Como se o mundo de nós
Que alimenta o futuro
Em memória e desgraça
Como se perdêssemos a sós
O nosso porto seguro
Na corrente que passa…

Como se volta ao passado
E se reconquista a história
Se tudo é rio cansado
Sem curso nem glória?

PeRcA

Onde ficou o espaço para nós?
De que espuma é feita esta onda?
Parece-me rio, sem ser foz
Parece-me amor, mesmo que se esconda...


Onde ficou o verso, a ternura? A monte?
De que parte de mim esta fogueira?
Parece-me mar, sem ser horizonte
Parece-me eu, mesmo que não queira...

aLuCiNaÇã0

Prometo-te um poema de amor, meu amor. Sim, hei-de chamar-te "meu amor"... Posso, meu amor? Gosto da palavra "amor&quo...