3 de dezembro de 2006

NaTaL

Que dizer de uma época que juntava toda a família, numa feliz harmonia? Mais tarde vim a perceber que a família não se entende... Que dizer de uma época em que o Pai Natal aparecia como um espécie de benfeitor? Desde logo percebi que não existem benfeitores e que tudo era bem mais interessante – desde as prendas inventadas pelo avô às surpresas das ofertas da tia (às vezes, e apesar da vizinhança, era mesmo este o único momento em que havia contacto... e sorria...) Que dizer da chatice que era as lojas estarem fechadas no dia 26 de Dezembro para que pudesse gastar o dinheiro recebido na noite anterior? Hoje mal posso ouvir falar em lojas neste época... Que dizer dos rituais de preparação da ceia de Natal, em que nunca participava, mas sentia-lhes o cheiro do prazer e da tradição? Mais tarde vim a sentir que, apesar de se poder comprar tudo feito, quando o prazer se torna quase que obrigação nem sequer chega a ser masturbação... Que dizer de sempre ter percebido as fantasias natalícias que os crescidos inventavam (Pai Natal, Menino Jesus...), com a maturidade e a inteligência de quem entra no jogo? Hoje percebi que se pode brincar o ano todo... Que dizer de uma época em que havia avós? Hoje percebo que as avós são diferentes... Que dizer das viagens que não se faziam porque o Natal era à nossa porta? Felizmente, há Natal; para que hoje faça as viagens de ir até à tua porta... Que dizer de mim? Amei o Natal; hoje não o suporto.
Na minha escola... não há anjos para colorir; não há pais natais a dar presentes; não há esterismos nem mentiras. Há o respeito por cada um; há a atenção a cada um; há o amor a cada um, com ou sem Natal; há um jogo – troca de prendas –, mas que acaba sempre da mesma maneira, com a febre da posse e do pouco valor que se teve ao simples e bonito facto (apesar de obrigatório) de ter recebido um presente, a beleza da troca e da partilha; há um almoço conjunto que passa muito depressa; há um dia sem aulas. Não tenho que ser o garante de tradições. Essas fazem parte de um movimento cultural e social, que nestes tempos actuais está mais preocupado em distrair e consumir as pessoas do que em torná-las verdadeiramente felizes. E o que faço eu então? Procuro isso mesmo: tornar as crianças e os meus VERDADEIRAMENTE felizes. Com ou sem Natal.

12 comentários:

musalia disse...

subscrevo tudo o que escrevesneste magnífico texto!!

'Com ou sem natal'...é essa a atitude.

bj.

Bandida disse...

é a atitude, mesmo. O resto é só mais uma peça da enferrujada máquina.






beijo.
____________________

Maria disse...

Natal devia ser amor, paz, solidariedade, compreensão, amizade, etc. etc.
No Mundo há: morte, guerra, fome, etc. etc. etc.
O que fazemos para alterar isto? O que fizemos? O que podemos ainda fazer?
Natal não é só 1 dia, Natal é sempre que eu quizer!

eu sou disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
eu sou disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Maria Romeiras disse...

É um estado de espírito, não o cultivar de melancolias ou, no outro extremo, consumismos. Fazer os outros felizes, conceito a alargar, não apenas a uma época que põe em stress emocional um mundo que já sofre demais de falta de amor.

nuno disse...

como este texto faz sentido para mim...obrigado...

vida de vidro disse...

Tive várias fases: a da criança que viveu um Natal tradicional, na província, a da adolescente que sonhava dar um Natal feliz aos outros, a da mãe para quem o Natal era o sorriso nos olhos das filhas (ainda é). Agora, começo a sentir a hipocrisia de tudo o que se liga a esta época e sobretudo, o quento se agudizam todas as percas e as misérias deste mundo.
Entendo muito bem o teu texto. **

Unknown disse...

Cheguei aqui por acaso..e confesso que adorei o texto...não parecio o Natal, há muito que deixei de acreditar no Pai Natal e que me transformei no dito senhor, tentando deixar alegrias e sonhos...
um abraço
brisa de palavras

Anónimo disse...

Como este dasabafo tão verdadeiro, tão sentido, fez eco no mais profundo da minha alma. Faço meus os teus sentires. Obrigado por existires.

Anónimo disse...

Também sinto o mesmo em relação ao Natal. Por isso este ano, para além de estar com a família, decidi celebrar o Natal (na sua verdadeira essência) e vou participar como voluntária na distribuição de alimentos, mantas,... aos sem abrigo de Lx.
Também podem fazer o mesmo.

Anónimo disse...

Quando nós fazemos anos, fazemos festas para os celebrarmos! A família e os amigos reunem-se. Faz-se uma bela refeição. Oferecem-se presentes. Apagam-se as velas. Vamos todos sair. Cantamos. Jogamos. Brincamos.

É Natal porquê?
O que quer dizer Natal?

Pois o Natal é o nascimento de Cristo. Ele é o aniversariante. Ele trouxe uma mensagem aos homens, mas houve sempre aqueles que a ignoraram.

Cada um crê no que quer. Mas o Natal é mesmo por causa daquele Menino que nasceu em Belém. Agora se nós nos esquecemos de lhe fazer uma festa, de lhe oferecer presentes ou de lhe cantar e preferimos oferecer a nós próprios... que dizer?!

Eu não me identifico com o teu texto! Acho que felizmente! :)

Mil beijos,
Mada.

oTeMp0

O tempo que passa Leva uma flor ao vento Que se faz poesia e raça Fonte, porta e lamento Curva-se o peregrino Sem ter medo da desgra...